Restaurantes
Comer fora em Lisboa

Lisboa terá sido nos séculos XIV a XVI uma cidade de "muitas e desvairadas gentes" (Fernão Lopes, Cronista-mor) e onde eram "mais os estrangeiros do que os naturais" (Damião de Góis, ilustre humanista e erudito). É estranho reconhecer que hoje, nos limiares do Séc. XXI, pouco terá mudado nesta forma colorida e descritiva como Fernão Lopes e Damião de Góis descrevem a cidade do Tejo.
Muitos factores influíram no peso da faceta cosmopolita da nossa cidade. Desde logo a Epopeia dos Descobrimentos, que aqui trazia mercadorias de todo o mundo conhecido e seus mercadores, depois o fim da colonização que fez regressar à velha Europa dezenas de milhares de africanos de todas as cores, em seguida a entrega pacífica da soberania de Macau à República Popular da China, resultando em mais uma integração de milhares de amigos asiáticos, por fim a integração na União Europeia e a moeda única , com a consequente reanimação da economia e dos negócios internacionais que provocou um fenómeno de imigração e que impulsionou mais o turismo.
Sempre se distinguiu em Lisboa - e de uma forma verdadeiramente snob - entre um "ocupante" da Cidade que vinha trabalhar para Lisboa, e aquele que vivia em Lisboa, o verdadeiro "alfacinha" que cá nasceu numa das suas actuais 53 freguesias.
Esta distinção era antigamente muito importante, porque servia para fazer a diferença entre a "esperteza afadistada" de quem vivia na cidade por direito de nascimento e por norma desdenharia fazer as tarefas mais humildes e a "esperteza saloia" de quem cá estava por "obrigação de trabalho" e a quem a cidade ficava a dever a execução de todos os mesteres mais servis.
Entre estes últimos encontraremos no século passado naturais de todas as províncias, portuguesas como espanholas, e em particular, no capítulo da restauração, muitos filhos da Galiza, profissionais de hotelaria e de restauração eméritos a quem Lisboa e Portugal muito devem. Comer fora em Lisboa hoje em dia é, por todos estes motivos, uma aventura dos sentidos.
Onde quero ir? Quero comer em Africano? De Angola, de Cabo Verde? Quero comer em Brasileiro com sotaque da Baía ou do Nordeste? Quero tentar a experiência portuguesa na Índia e partir à descoberta da ilustre comida Goesa? Quero tentar-me pelos sabores do Extremo Oriente, na sua declinação macaense? Ou quero simplesmente provar aquilo que a cozinha típica portuguesa tem de melhor? É por aqui que vamos – pela cozinha tradicional portuguesa e lisboeta - neste caminho do aconselhamento, tendo em mente que muitos dos nossos visitantes serão, tanto ou mais do que nós, peritos nas gastronomias alternativas que citámos atrás.

Para organizar esta difícil tarefa do visitante, filatelista e gastrónomo, deixam-se algumas sugestões à laia de conselhos, estribados numa única certeza: foi Portugal o primeiro País do Mundo a editar selos com receitas de cozinha tradicional e esse facto não deixa de nos impor (mais) uma responsabilidade para esta comunidade filatélica, agora no capítulo do aconselhamento gastronómico.
O primeiro conselho que se pode dar sobre esta matéria é do senso comum: "Galinha gorda por pouco dinheiro", experiências gastronómicas de alto nível pagando pouco, não existem em Lisboa e, tanto quanto posso afiançar pela experiência efectiva, não existem em mais lado nenhum do mundo.
Pode-se comer bem em Lisboa, tendo cuidado com os vinhos que se bebem, por uma quantia que variará entre os 25€ e os 35€ por pessoa. Mas por esse preço nada de "violinos" ou de vista de mar a perder de vista, nada de comida de "fusão" ou de culinária experimental tipo "nouvelle cuisine" com entoação do grande Adriá no seu famoso El Bulli. Apenas comida honesta, honestamente feita, em casas que são normalmente muito atarefadas, sobretudo à hora do almoço.
Neste tipo de restaurantes mais populares, onde o vulgar trabalhador de escritório ou bancário come quase todos os dias, os truques para gastar menos comendo bem, para além do óbvio que é a escolha do próprio restaurante, são também eles simples: fugir das "entradinhas", quando muito pedir um "queijo fresco" para fazer "boca" antes do prato principal. Fugir dos peixes cujo preço esteja marcado ao quilo.
Escolher pratos "de tacho", o chamado "prato do dia" aqui em Portugal (o mesmo do que a "sugéstion du chef") e onde podem encontrar "monumentos" da tradição gastronómica lusa como o Cozido à Portuguesa, as Feijoadas, a Mão de Vaca com Grão, e por aí fora. Comida pujante, "de substância e de respeito", boa para os almoços.
Beber vinhos verdes (brancos ou tintos) quanto mais novos melhor, do próprio ano ou do ano anterior, escolhendo da carta os que estão na forquilha de preços entre os 10€ e os 15€; ter em atenção que uma garrafa normalmente dá para duas pessoas.
Abdicar de "digestivos" e trocar a sobremesa doce por uma peça de fruta.
Exemplos deste tipo de Restaurantes em Lisboa:
Nos restaurantes do nível seguinte, onde o preço por cabeça já rondará entre os 35€ e os 50€, mais frequentados pela classe média alta, por executivos e por profissionais liberais, já é possível dar azo a alguma imaginação criadora na escolha da refeição.
Primeiro começando por uma "Entrada" de acepipes em pratinhos, estes são tantos e tão variados, desde a meia-desfeita com grão, às ovas ou peixes pequenos de escabeche, passando pelas saladas de pimentos, de polvo, queijos frescos ou secos e até presunto de boa estirpe, etc, etc... que a sua descrição ocuparia quase todo o espaço que temos disponível.
Não esquecer o fenomenal marisco português, normal mente caro, mas vale bem a pena experimentar as Ameijoas à Bulhão Pato (com coentros), ou as Gambas da Costa apenas cozidas com sal grosso por cima.

Depois avançar por algum dos pratos do receituário tradicional lisboeta: o excelente peixe fresco cozido ou grelhado, ou mesmo assado no forno (cherne, garoupa, linguado, pescada, pargo e goraz são os mais habituais) as caldeiradas à Fragateira (pratos completos feitos com variados tipos de peixe), o Pato com Arroz no forno, os Bifes à Marrare ou à Jessen (carnes do vazio partidas altas e servidas com molhos adequados), o Lombo de Porco assado no forno, a Carne de Porco à Alentejana (com amêijoas), as Iscas à Portuguesa (lascas finas de fígado de porco fritas de cebolada, os Rojões à Minhota, e por aí fora...
Com este enquadramento já se pode pedir um belo vinho tinto ou branco, maduro, ou verde Alvarinho, cujo preço na carta poderá atingir os 25€ ou 30€. Tenham apenas em atenção o cuidado de evitar vinhos tintos de 2002, o pior ano de vinho em quase todas as regiões vinícolas portuguesas. Claro que há excepções, mas estas são para especialistas... Peçam tintos do Douro, do Alentejo, do Ribatejo, da Península de Setúbal ou do Dão, mas dos anos 2003, 2004 e 2005.
E terminem com um ananás dos Açores, perfumado que baste, ou com uma sobremesa conventual à base de ovos, ou ainda com um leite-creme queimado na altura.
Exemplos de restaurantes deste nível, porventura os mais abundantes em Lisboa:
Por fim, para o gastrónomo que deseja investir no conhecimento da alta gastronomia lusitana, existem em Lisboa e arredores moradas de alto nível, algumas com Menções muito honrosas nos mais conhecidos Guias mundiais de restauração.
Nestes locais, onde a reserva prévia é sempre obrigatória, o céu é o limite...
Normalmente aconselha-se seguir a sugestão do “Patron” através dos menus de “Dégustation”, que podem atingir entre os 70€ e os 90€ por pessoa, e depois escolher os vinhos dentro das grandes colheitas disponíveis nas cartas, alguns a mais de 100€ por garrafa. Mas mesmo neste tipo de restaurantes, e se nos entregarmos às escolhas do Chef de Sala e do Chef de Cozinha, será possível comer e beber, muito bem, por cerca de 130€ ou 150€ por cabeça.
São hipóteses:
Últimos conselhos: seja ao almoço ou ao jantar, por norma não comam em locais onde não conseguem ver o que está nos pratos. Seja em casas típicas onde se canta o fado ou noutras.
Não se esqueçam de uma regra simples para calcular o preço de uma refeição normal em Portugal: escolham na carta de vinhos uma garrafa de Vinho Tinto a preço médio e multipliquem por dois.
E, finalmente, não saiam de Lisboa nem de Portugal sem comer bacalhau. Bacalhau seco, curado e salgado, que aqui se faz de mil e cem maneiras e que poderão encontrar em qualquer tipo de restaurante que desejem frequentar, desde a simples “Tasca” até ao de luxo, bacalhau cozido ou assado, desfiado ou lascado à "francesa", em bolinhos ou em pataniscas...
Bom Apetite em Lisboa!
Raul Moreira